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Carlos Lucchesi

...Bom menino eu  até que sempre fui, mas não era muito de seguir os sábios conselhos do meu pai... Lembro que uma vez ele me disse: "Olhe sempre para frente!" Era complicado seguir este conselho vendo aquelas belas meninas passarem na calçada. Eu até que tentava, mas essa minha mania de admirar a  beleza e o desconhecido, algumas vezes me colocava em sérias encrencas. Foi o que aconteceu naquele sítio, bem no interior de Minas Gerais.

João e eu éramos companheiros inseparáveis; daqueles amigos de todas as horas. De parafusos meio soltos, é verdade, mas, talvez por isso, combinássemos tanto. Tinhamos em comum o gosto pela aventura, por fazer o que poucos se atreviam. Onde quer que fossemos, João levava sua velha máquina fotográfica pra registrar nossas costumeiras estripulias. Nunca vi igual pra gostar de subir morros. Se eu acreditasse em reencarnação, não teria dúvidas que ele viria cabrito na próxima.

Quando ele olhava pensativo pra alguma colina, eu já sabia qua ia aprontar alguma das suas. Pior que me arrastava literalmente com ele, pois pelo meio do caminho tinha que me puxar. E que preparo físico tinha o danado! Coisa de fazer inveja até ao Papa-Léguas.

Foi numa de nossas caminhadas pelas trilhas de Minas Gerais que ele teve uma grande idéia: Visitar  aquele sítio que ficava entre os morros de um lugarejo de nome Sertãozinho, onde moravam parentes distantes, que há muito não tinhamos notícias.
Logo eu descobriria que o nome do lugar não foi escolhido por acaso...

Sempre perguntava a ele: - ainda tá longe João? "- É logo ali, depois daquele morro!", dizia sempre. Até perdi a conta das vezes que ele me deu  esta mesma resposta...

E sobe morro, desce morro, e nada do tal sítio... Já começava a pensar que estávamos no caminho  errado quando, quase ao pôr do sol, avistamos a velha casa.

Lugar tão ermo que era difícil imaginar que fosse possível sobreviver ali, longe de tudo e de todos. Ao nos aproximarmos, avistamos dona Nair, que nos recebeu muito bem; ela e suas seis filhas, todas trancadas em seus quartos e nos olhavam acanhadas, pelas gretas das portas semi abertas. Visitante ali era coisa rara, mas, aos poucos, se desinibiram e foram se apresentando.
Eram tantas que nem lembro o nome de todas! Selma, Marta, Graça, Lúcia. Simples e bem bonitinhas! Caso a parte era Marta, a mais gordinha de todas, que andava pela casa como se caregasse duas bolas de boliche presas aos pés; arrastando, com ela, tudo que encontrava pelo caminho. Justamente o oposto da morena Selma, a mais alta da turma, que caminhava como se flutuasse sobre núvens.

Nos sentamos a mesa , e tomamos aquele cafezínho moído na hora, a espera do chefe da casa, que não tardaria a chegar...

Logo ao cair da noite, o galope do cavalo anunciou a chegada do seu Jarbas.
Quando ele abriu aquela porta pensei que fosse um desses trovões em dia de tempestade!
A porta nem teve tempo de ranger, tamanha a velocidade com que foi arremessada contra o canto da parede. Pra encurtar a conversa, basta dizer que, ao passar por ela, quase que precisou se ajoelhar. Pensei: ou a porta é de menos, ou seu Jarbas de mais, tanto pra cima, quanto para as laterais.
Toda aquela impressão inicial se desfez, quando ele veio ao nosso encontro com os braços abertos e nos deu as boas vindas; se bem que  o cheiro  que exalava não era nada convidativo, tanto que quando ele me abraçou, pensei que dona Nair tinha  colocado um queijo sobre a mesa.


Achamos que ele fosse tomar seu banho, antes de sentar-se a mesa ao nosso lado. Que nada! Apenas arregaçou as mangas da camisa e as calças, tirou suas surradas botas. Ah, e as meias!.. Quase levantamos da mesa nesta hora, mas, como não havia energia elétrica na casa, a cozinha iluminada por lamparina, era mesmo o único  lugar que se podia ficar.
Ele lavou os braços até a altura dos cotovelos, as pernas, até os joelhos, e deu-se por satisteito. A toalha que era branca mudou de cor, como se fosse Michael Jackson ao inverso.

Quando dona Nair pôs a mesa perguntei: - onde estão os peões que vêm para o jantar? Era tanta comida, tanta carne de panela que, só de olhar, já me sentia como se tivesse comido sozinho uma pizza tamanho família. Claro que não podia faltar o tão famoso Q-suco que, naquela região tão  remota era bebida de luxo. Dona Nair despejou um pacote inteiro dentro de cinco litros de água. Difícil foi saber o sabor depois de pronto, mas tinha que dar pra família inteira.

Servimos nosso prato com um pouco de macarrão, carne de panela e angu mineiro; tudo bem temperado e saboroso, com aquele gostinho de comida feita no fogão à lenha em panela de ferro. E seu Jabas... Nem acabamos de nos servir e ele já estava no seu segundo prato. Se crescesse na mesma proporção que comia; bateria com a cabeça no telhado, em vez da porta. Pior é que ele acreditava que podiamos comer da mesma forma, e antes que terminássemos, enchia novamente nossos pratos e fazia o mesmo com o copo de Q-suco.
Aquele foi o jantar mais longo da minha vida, e pela disposição do seu Jarbas, percebemos que, se não levantássemos da mesa, duraria mais do que  carnaval na Bahia.

Era ainda sete horas da noite, quando fomos deitar. Ficamos num pequeno quarto, próximo a varanda da casa. Quando apagamos a lamparina, não se podia ver um palmo adiante do nariz, tamanha a escuridão que se fez. Foi ai que nossos problemas começaram...



Eu havia bebido refresco mais que podia, menos do que seu Jarbas queria e logo veio aquela vontade danada de tirar o excesso  do Q-suco que me incomodava, mas ao recordar do banho do seu Jarbas na cozinha, me dei conta de que não havia banheiro na casa, e eram apenas pouco mais de sete horas da noite.
A vontade de aliviar era tanta que tive de segurar a "torneira" pra não fazer ali mesmo na cama; idéia que não agradou nem um pouco ao meu amigo João, pois a dividiria comigo.
Pensei em abrir a porta e procurar algum lugar, mas se não podia ver nem o pinto, quanto mais a porta! Mesmo se conseguisse, havia a possibilidade de esbarrar com o seu  Jarbas e ele poderia pensar que eu estava a caminho de um dos quartos das seis meninas; e segurando o pinto, como eu estava, jamais acreditaria na minha história do xixi.

Foi ai que meu amigo lembrou que era comum conservar um pinico debaixo da cama, mas se não conseguia ver o  pinto, quanto mais o pinico! Mesmo assim tateei, até que o encontrei. Porém, pra azar nosso, tava cheio até a boca. Imaginei esvaziar jogando pela janela, mas se não podia ver o pinto, quanto mais a janela! E a noite mal havia começado.

Na ansiedade que estava, tentei ver as horas, mas se não podia ver o pinto, quanto mais o relógio, de ponteiro bem menor...
Quando finalmente o dia clareou, corri logo pra beira do rio, que passava a poucos metros da casa. A vontade era tanta que realizei a proeza de regar a grama na margem oposta do rio..

No café da manhã, dona Nair colocou à mesa um enorme bule de café e a mesma jarra de Q-suco da noite anterior.
Bebemos muito café com bolo de fubá e do tal Q-suco, nunca mais nem quis ouvir falar...

















                                                              A Casa das Seis Meninas