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Carlos Lucchesi


Naquele fim de noite de maio, eu estava triste, como jamais havia estado antes.
A conversa que eu tinha acabado de ter com ela; havia, definitivamente, colocado um abismo intransponível entre nós.
Decidi subir ao meu terraço pra olhar as estrelas, e talvez, encontrar nelas, motivos pra voltar a sorrir.

Eram tantas que nem sabia pra qual olhar. Possuiam o mesmo brilho que eu tinha, e acabara de perder.

Ali mesmo deitei sobre minha rede, e ainda com os olhos fixados nas estrelas; lembrei de uma história que ouvi, quando era bem menino:

Lá pelo interior das muralhas da China; havia um povo que vivia longe de tudo e de todos.
Bem na entrada da pequena aldeia, construíram uma grande imagem em ouro maciço, e a ela prestava culto e veneração.

Anos seguidos passaram sem que ninguém ousasse profanar o símbolo sagrado daquela gente.

Tempos depois; um povo bárbaro decidiu invadir aquela mesma aldeia para se apoderar das suas riquezas.

Visto que a invasão era eminente; um conselho foi criado, e ficou decidido que deveriam trabalhar dia e noite para cobrir a imagem com pedras; até que nenhuma das suas partes ficasse exposta. E o brilho do ouro não pudesse ser visto por ninguém.

Quando os invasores chegaram na aldeia, não encontraram resistência daquele povo pacífico; tampouco, deram importância àquela imagem de pedra na entrada da aldeia.

Assim se passou anos seguidos; até que todos que conheciam o segredo e a história da imagem  tivessem morrido.

Não havia mais ninguém que soubesse explicar aquele imenso bloco de pedra na entrada da aldeia.

Numa noite quente de verão; um jovem que por ali passava sentou-se sobre a pedra para contemplar o imenso céu azul.
De repente; uma das pedras desprendeu do monumento e caiu perto dos seus pés, e uma luz muito forte emergiu da escuridão, como se desejasse dividir com as estrelas o brilho daquela noite.

O rapaz bateu forte contra a fenda e a abriu ainda mais, e quanto mais a fenda se abria; maior era o brilho que dela saia.
Chamou todos da aldeia para verem sua descoberta, e em pouco tempo; o povo reunido tirou, uma a uma, as pedras que cobriam a imagem.

O brilho do ouro era quase tão intenso quanto os olhares admirados das pessoas que ali estavam.

Mesmo coberto; aquele ouro jamais deixou de ser.

Mesmo esquecida no tempo; aquela história  jamais deixou de existir.

Eu tinha subido ao meu terraço naquela noite pra ver o brilho das estrelas, e vi porque elas lá estavam ao alcance dos meus olhos.

Adormeci na minha rede tentando redescobrir o brilho, escondido agora sob pedras, dentro de mim mesmo...


                                                                           Brilho Nas Pedras