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Carlos Lucchesi












                                                                    Caminho Das Pedras















































































































...Depois de uma semana inteira de trabalho, eu estava pronto pra recostar na minha rede e ver o tempo passar, quando meu amigo Paulinho chegou apressado. Não é que ele tinha decidido se mudar, justamente naquela tarde preguiçosa de sábado!

Pensei: - Pronto, lá se foi o meu descanso!
E foi o que aconteceu. Pulei na carroceria do velho caminhão e partimos rumo a sua nova casa. Tinha que ajudar meu velho amigo naquela hora de precisão!

Seu novo endereço era um local de nome "Caminho das Pedras". E do jeito que o caminhão pulava por aquelas estradas, o tal nome caiu como luva naquele lugar.
Levamos tanto tempo pra chegar ao nosso destino, que em vez de bairro, cheguei a pensar que ele tinha decidido mudar de país. Contudo, Paulinho me garantiu, que ficava lá pelas "bandas" de Jacarepaguá.

O local era tão ermo, que nem telefone tinha chegado por lá e o celular  só pegava, se subisse numa montanha que ficava nos fundos da casa. Coisa que não me atrevi a fazer, pois não tinha levado nenhum equipamento de alpinista.

Melhor nem falar sobre minha noite de conflitos com as muriçocas e maribondos que não me deixaram "pregar os olhos".

No dia  seguinte, decidi voltar. Fiquei duas horas esperando por um ônibus que só passava duas vezes ao dia: uma de ida e outra de volta. Quando finalmente apareceu, deu pra saber a um quilômetro de distância, de tanto barulho e fumaça que deixava pelo caminho.

Fiquei um pouco desanimado, mas logo meu sorriso se abriu ao ver escrito no pára-brisa direito a seguinte frase: "Promosão: 1 real!"
Por um real, eu fiz de conta que não notei aquele erro de ortografia; tampouco fiz caso do vidro quebrado do pára-brisa.

- Seja o que Deus quiser! Pensei...

Duas horas depois, eu ainda rodava naquele velho ônibus, sem ter a mínima idéia de onde eu estava.
Passou por uma rua tão estreita, que os passageiros tiveram que passar todos para o lado direito do carro, pra ver se cabia no caminho. E pra piorar a coisa; não é que veio um outro ônibus no sentido contrário!...
"634 Pau da Fome". Era o que estava escrito no letreiro de destino.

Já tinha ouvido falar de lugares de nomes estranhos: "Sovaco da Cobra", "Rato Molhado", Espinhela de Gato", mas "Pau da Fome, superou a minha imaginação.
Se eu morasse num desses lugares de nomes exóticos; preencheria os formulários como "morador de rua", só pra não ter que passar por tamanho vexame.

Depois de duas horas naquilo que eles apropriadamente chamavam de "lotação", não dava pra ficar sem comer nada. Pra sorte de todos; entrou no nosso ônibus, um desses meninos que vendem doces e anunciou:
- "Desculpem senhores passageiros por incomodar a sua viagem, mas trago aqui os deliciosos bombons garoto na promoção de Três por um real. E quem levar seis, ganha um no prazo de validade!"
Minha fome passou na mesma hora!

Já estava quase escurecendo quando começou a chover, e uma senhora que estava logo atrás de mim gritou: - "Fecha o vidro da janela moço!" - Fechava, se tivesse, respondi!
O vento que entrava pelo pára-brisa quebrado era tão forte que faria inveja a qualquer um desses ônibus chamados de "frescão!"

Como nunca parecia chegar ao meu destino, indaguei ao motorista: - Esse ônibus vai ou não vai pra Madureira?
Pelo sorrisinho de deboche que ele deu, nem precisava responder. Contudo, resmungou: -"Se vai, esqueceram de me avisar!"

Foi o limite pra mim! Decidi saltar ali mesmo e pegar qualquer coisa que se movesse pra chegar em casa.
Com um pouco de sorte, poderia passar uma dessas kombis de transporte alternativo. E foi o que aconteceu...

  

 
Uma hora depois apareceu a tal kombi. Mas eu já estava decidido: se tivesse a tal "promosão" de um real; acabaria de chegar a pé mesmo em casa!

Um real e noventa centavos era o preço da passagem. Foi à primeira vez na minha vida que fiquei alegre por não pagar uma promoção...

Por volta de meia noite, enfim cheguei em casa e fui direto pra cama, de tão cansado que estava.

Dias depois, Paulinho apareceu novamente no meu portão, me perguntando se deveria trocar os pisos da sua nova casa.
Com a desgastante experiência que tive naquele dia; o aconselhei, em vez do piso, trocar de casa!