Corrida Radical

Naquela tarde de domingo do carnaval de 2006 sentei em um dos bancos da praça central da cidade de Carvalhos, ao sul de Minas Gerais. Era grande o movimento ao redor. Motoqueiros apressados passavam a todo o momento, fazendo ruídos estridentes com suas máquinas turbinadas e possantes; aquecendo os motores para uma competição, que estava prestes a começar. Um grupo de motoqueiros estacionou bem perto do banco onde eu estava, e contavam vantagens das suas aventuras radicais.  

O chefe do grupo dizia que, certa ocasião, desceu as escadarias do morro do corcovado, no Rio de Janeiro com sua moto, e que havia feito isto de marcha ré.

Como costumam dizer os mineiros, nesta hora eu “queimei no gorpe”. Ora, todo mundo sabe que moto não tem marcha ré. E, como sou avesso a mentiras, tampouco gosto de mentirosos, o desafie a provar as suas bravatas.

Propus disputarmos uma corida. Partiríamos juntos, quando fosse dada a largada.  Eu usaria a moto do amigo ao lado. Mas em vez de correr na moto, a puxaria, correndo “de quatro”. Foi uma gargalhada geral.

-"Tá me tirando!" Resmungou um deles.

Todos duvidaram que eu fosse capaz de realizar tamanha proeza.  Sugeri que a partida fosse dada pisando no rabo de um gato que dormia logo adiante. Como os rapazes pareciam gostar tão pouco de gatos como eu; concordaram sem objeções, menos o gato. Pra disputa ficar mais interessante, acertamos que, quem chegasse à frente beberia duas “Cocas”, por conta do oponente.

O motoqueiro chefe se posicionou na linha de partida, enquanto eu subia na moto. Segundos antes da largada, acelerou tanto sua moto, que com a nuvem de fumaça que se fez, muita gente abriu seus guarda-chuvas, achando que ia chover.

Quando a largada finalmente foi dada, o coitado do gato miou tão forte que abafou o barulho dos motores. Escafedeu-se mais rápido do que o piscar de um relâmpago, e até os dias de hoje, ninguém teve mais notícias dele. Se  tinha mesmo sete vidas, deve ter ido viver as seis restantes em outro lugar qualquer.

Firmei meu tênis “Nike” do Paraguai na lateral da moto com tanta força, que a sola do pé direito descolou, no momento da largada.  
Ninguém jamais havia visto aquela façanha realizada de tal forma. O certo é que eu levei primeiro a bandeirada, na linha de chegada.


Cheguei com tanta vantagem  na frente do meu concorrente, que quando ele finalmente apareceu, eu já havia bebido as duas “Cocas”, e colado a sola do meu “Nike”.

                          



Carlos Lucchesi






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