Quando aquele menino nasceu, algo já parecia estar errado. Apesar de várias tentativas, os médicos não conseguiram tirar dele um só gemido no momento do parto. - “Esse menino não vai vingar”, diziam todos.

Devanir era assim, calado, esquisito mesmo, e ninguém parecia lhe entender. Na maioria das vezes ficava com o olhar fixado no chão, sem que alguém sequer imaginasse o que lhe passava pela cabeça.

Cresceu assim e foi uma luta para os pais lhe tirarem de casa para a escola. Só ai então  a vida de Devanir começaria a mudar.

Logo aprendeu a ler e lidar com os números; a ponto de seu pai lhe colocar para atender no balcão do armazém da família.
Ficou lá pouco tempo, pois se recusava a receber o dinheiro dos fregueses.

- “Deixa pra pagar depois”; dizia ele.

Pra não ter seu negócio arruinado, seu pai lhe colocou no melhor colégio da cidade em tempo integral, e Devanir só fazia agora estudar.

“O Bobo”; era assim que se tornou conhecido na escola. Quer pelo fato de dar sua merenda aos outros meninos, ou por lhes dar todo o dinheiro que tinha.

Devanir era diferente e ele sabia muito bem disso.

Ainda jovem, tornou-se advogado, e o fez de forma brilhante. Não havia ninguém que movesse uma causa sem primeiro ouvir os seus conselhos e a sua opinião... Mas na hora de receber seus honorários; era como nos tempos do velho armazém do seu pai.

- “Deixa pra pagar depois”, repetia ele.

Vivia rodeado dos nomes ilustres da cidade. Todos queriam ouvir suas palavras e compartilhar da sua companhia.

Mesmo assim, rico nunca foi, nem jamais viria a ser. Definitivamente dinheiro não era a sua prioridade. Passava finais de semana inteiros cuidando do quintal da sua casa, e mesmo com as ferramentas ao seu lado; gostava mesmo era de fazer todo trabalho com as próprias mãos.

Numa dessas vezes, sentou-se debaixo de uma árvore e começou a chorar. Aquele choro contido do nascimento parecia ter despertado naquele momento. Talvez por se sentir tão diferente de todos, não ter as mesmas preocupações e ambições, de se sentir completamente sozinho num mundo, que parecia não ser o dele. Até que um pássaro pousou num galho logo acima e começou a cantar.

Embaixo Devanir chorava e logo acima, o pássaro cantava. Devanir sabia exatamente porque chorava, e o pássaro, sabia por que cantava?

- “É melhor chorar sabendo por que choro, do que cantar sem saber por que canto”, murmurou Devanir, entre as lágrimas do seu rosto.

Cruzei muitas vezes com ele pelas ruas, e como todos também o achava meio “bobo”, mas foi com ele que anos depois eu iria moldar os meus princípios, e aprender a dar valor às coisas que verdadeiramente tem.

Hoje, ao me voltar para o passado pra comparar tudo que aprendi a ser; não me envergonho de admitir que se havia algum “bobo”; esse “bobo” era eu...

 

(“O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo... É tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos... Só o bobo é capaz de excesso de amor”. Clarice Lispector).







Carlos Lucchesi
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