E dai?

Naquela manhã de sábado, me dirigi à casa de um grande amigo para cumprimentá-lo pela indicação como presidente de um dos maiores partidos políticos da cidade.

- “Parabéns!”, anunciei logo na chegada.

 Ele deu um sorriso meio amarelo; pensou, pensou, como se procurasse as palavras para me responder, e disse:

 - “Olha, eu não pedi e nem queria esta indicação. Só aceitei porque foram muitos os amigos, que insistiram para que assim o fizesse, com a argumentação de que eu era a única pessoa com unanimidade e credibilidade para ocupar aquele posto.

Aceitei pelos amigos, mas nada disso tem importância, ou faz algum sentido pra mim. Serei presidente de um grande partido, e daí? Talvez pudesse ser indicado para concorrer à prefeitura; talvez ganhasse, e daí?

Qualquer coisa que façamos, onde quer que seja possível chegar, haverá sempre inúmeras outras que podemos fazer nesse caminho da busca pessoal, em função do reconhecimento, da admiração, de honrarias, mas, e daí?

 
Diz a sabedoria popular que “caixão não tem gaveta”; portanto, que ninguém espere levar nada desta vida para outra; se é que ela existe.

Títulos, medalhas, diplomas, são como confetes: sobem em festa e acabam debaixo dos pés da multidão. Sobrevivem o tempo preciso da própria queda.

Cada um vive no seu mundo com seus próprios sonhos e anseios, no seu micro universo pessoal. O trabalhador da favela sonha em construir um sobrado com terraço. O político de Brasília deseja ter uma mansão à beira do lago Paranoá.

A nível do planeta, existe e já existiu quem sonhasse em ser o dono de toda a Terra. Estes acreditavam ser o limite máximo possível a ser atingido. Um macrocosmo governando milhares de outros micros.

Um dos astronautas em missão na órbita da terra, dizia, que olhando lá de cima, tudo parecia sem importância e insignificante cá embaixo. Declarou que aquela visão havia transformado completamente a sua forma de pensar a vida. Riu da discussão e briga que teve com o vizinho. Questionou as guerras que leu nos livros por disputas territoriais e de poder. Tudo agora lhe parecia sem valor, diante da imensidão do universo a sua volta”.

Concluiu meu amigo:

“A verdadeira busca, o maior motivo de alegria é encontrar felicidade contribuindo para a felicidade de outras pessoas. De fato, ninguém que não seja feliz é capaz de fazer a felicidade alheia, a não ser que encontre na possibilidade do efeito o seu próprio motivo.”

Naquele instante, veio na minha mente o pensamento do historiador inglês Theodore Zeldin, que afirmava o seguinte:

“Conversar não é apenas reembaralhar as cartas: é criar novas cartas para o baralho. O aspecto da prática da conversa que mais me estimula é o fato de poder mudar os sentimentos, as idéias e a maneira como vemos o mundo, além de poder mudar até mesmo o próprio mundo”.

 Fico aqui pensando quantas pessoas dedicarão seu tempo à leitura deste texto. Fico aqui imaginando quantas destas poderão dizer: “e daí?”.










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Carlos Lucchesi