Juntando Pedrinhas

Ao amigo José Ricardo dos Santos Rodrigues;
o maior “juntador de pedrinhas” que já conheci.


Havia acordado bem cedo naquela manhã, mais do que o de costume. Toda cidade parecia ainda adormecida e entorpecida, pela ressaca daquela quarta-feira de cinzas de carnaval. Abri a janela e na pracinha, alguns metros adiante; um menino abaixado, parecia envolvido em alguma tarefa, com zelo e muita atenção. 

Quando me aproximei por mera curiosidade, sequer pareceu notar a minha presença. Havia um buraco de formigas, que entravam e saiam, parecendo confabularem entre si, no meio do caminho. Ao redor, ia se formando algo parecido com um morro, onde subiam e colocavam as pedrinhas que traziam, de dentro do buraco. Algumas pedrinhas rolavam pra longe da base, e o menino as trazia de volta, com um pequeno pedaço de madeira, que segurava em uma das mãos. A visão que eu tinha de cima assemelhava-se a um minúsculo vulcão, tendo o menino como seu único e pequeno protetor.

- “Elas constroem o muro em volta, para proteção do caminho que fizeram por baixo da terra”. Explicou o menino. 


Seria pouco provável que algo permanecesse ali, depois de uma chuva, que inevitavelmente rolaria morro abaixo da encosta, onde a pracinha fora construída. Ou que sobrevivesse no caminho de algum frequentador menos atento, ou ainda que alguém, por puro descaso chutasse tudo aquilo e espalhasse por todos os lados; ponderei com o jovem guardião das formigas.

_ “Se chutar, não vai ser eu”. Disse o menino.

Sentei no banco, logo ao lado e fiquei um longo tempo observando, como se me faltasse as palavras. Viajei até o passado, lembrei-me dos tempos da adolescência, quando todos os jovens bebiam e fumavam, apenas para acompanhar o modismo, e eu me recusava a fazer o mesmo, pra não ser submetido a nada, que escapasse a minha decisão. Perguntei a mim mesmo se naquele momento da minha vida eu não estava juntando as minhas pedrinhas.

Talvez ali, bem na minha frente, naquele pequeno gesto, o menino estivesse também construindo, com as mesmas pedrinhas que reunia as bases do seu futuro, como ser humano de caráter e homem de valor.

Havia nele uma cor transparente, que me permitia enxergar o seu modo diferente de ser.

Senti vontade de perguntar pra todo mundo. Senti vontade de perguntar pra você leitor: quantas pedrinhas na sua vida você já juntou?

 



Carlos Lucchesi




Voltar