Quando Três é Demais

Naquele final de noite, Wesley chegou eufórico em casa. Sua mãe já o esperava, como de costume para o jantar. Mesa posta, tudo arrumado do jeitinho do filho, a quem ela dedicara a maior parte daqueles seus setenta anos de vida.

          Dona Alzira era assim no zelo pelo filho, e prometera a si mesma não se apartar da vida antes que visse por completo a sua felicidade. Queria para ele uma família, netos, a tranqüilidade de dias sem muitas lutas, como tivera para si, e tempos melhores de viver.

          Tudo estava arrumado na mesa como Wesley gostava: a garrafa de café para depois do jantar, e até a laranja já cortada em quatro partes; a sobremesa preferida do filho.

Antes que sentassem à mesa, Dona Alzira questionou:

- “Conte-me filho; qual o motivo  dessa sua alegria?”

- “Quero que a senhora seja a primeira a saber: finalmente, depois de tanto tempo, Ledice aceitou o meu pedido de casamento. Ficou tudo acertado para o mesmo dia do aniversário dela”. Respondeu Wesley, mal se contendo de felicidades.

Dona Alzira corou sem saber o que dizer, e um semblante triste tomou conta do seu rosto.

          - “Filho, sente-se aqui ao meu lado e ouça o que sua mãe tem a dizer. Sabes que sempre quis o melhor para ti”.

- “Claro mãe, nunca tive dúvida alguma sobre isso”.

- “Pois bem! Embora sabendo dos seus sentimentos verdadeiros por Ledice, creio que estás cometendo um grande engano”.

- “Mãe, não comeces de novo com esta sua implicância sem motivos contra Ledice. Já a trouxe aqui em casa diversas vezes, e as duas tiveram tempo suficiente para conversar e se entenderem”.

- “Justamente por isso meu filho. O tempo foi bastante para conhecer esta, que você quer tornar sua esposa e mãe dos seus filhos”.

- “E por que estas dúvidas agora, esta relutância em aceitar minha união?”

- “Sou uma velha, é verdade, mas o ganho que se tem com estas rugas que carrego na face é a experiência; a mesma que me diz que Ledice só lhe trará sofrimentos. Em cada uma das nossas conversas, ela parecia sempre distante; estava ali, mas os pensamentos em outro lugar. Jamais me fitou nos olhos quando falava, como se não acreditasse nas suas próprias palavras, ou tivesse algo para esconder. Certa ocasião, ela me disse que não confiava em ninguém. Filho, as pessoas que assim procedem não são dignas de confiança, pois costumam julgar os outros pelo próprio modo de agir”.

          Wesley nem começou o jantar. Visivelmente irritado, levantou-se e disse:

“Já está decidido: no dia 27 de agosto próximo desposarei Ledice, com, ou sem a sua permissão”. Retirando-se para o quarto em seguida, sem olhar pra trás.

          Rolou na cama sem pregar os olhos toda noite. Fora a primeira vez em que não ouvira os conselhos de sua mãe, e isso o incomodava profundamente. Contudo, Ledice era a mulher da sua vida e nada o faria voltar atrás naquela sua decisão. Fez a sua escolha e mesmo contrariado, ignorou as palavras de Dona Alzira.

Pouco se falaram nos dias que antecederam ao seu casamento; até que o dia 27 de agosto finalmente chegou.

Tudo correu muito bem nos primeiros anos de vida em comum. Dois filhos haviam chegado e as previsões de sua mãe, felizmente pareciam não terem se concretizado.

Wesley trabalhava duro o tempo todo. Não havia domingo, feriado, tempo, hora, ou descanso. Desejava comprar sua casa, montar seu próprio negócio, pois só assim seria patrão de si mesmo, e teria mais tempo pra dedicar a sua esposa. Até que Karina, a amiga inseparável de Ledice entrou em sua vida e viria interromper tudo isso.

          Karina era mulher impressionantemente linda, de formas irresistíveis e logo se insinuou para Wesley. Daí em diante tudo começaria a mudar. Não suportou por muito tempo as sucessivas investidas e aos encantos de Karina, cedendo a um encontro amoroso, pouco tempo depois. Não tardou para que tudo chegasse aos ouvidos de Ledice, e interrompesse ali aquela suposta grande  amizade.

         As brigas foram inevitáveis, mas parecia que as coisas iriam se ajustar, a não ser pelo fato de que Ledice tramava sua vingança na mesma moeda e com certeza  com o mesmo sabor.

          De início foram só conversas íntimas com alguns amigos, quando muito algum beijo, mas o “troco” anunciado logo viria a acontecer.

          Por motivos não muito nobres, Karina arquitetou para que tudo chegasse ao conhecimento de Wesley, que quase enlouqueceu. Contudo, cedeu às explicações da esposa, baseadas no antecedente de: "foi você quem começou", e na argumentação de “um momento de fraqueza”.

          Wesley decidira a partir daí nunca mais ter olhos para outra mulher, que não fosse a sua; dedicar o resto da sua vida à esposa e filhos. Apesar disso, Ledice tinha outras idéias na cabeça. O gosto pela novidade e o perigo da traição haviam lhe seduzido, e despertado nela instintos inconfessáveis; não tardando a se envolver com outros homens, tomando rumos e caminhos de consequências imprevisíveis. Para não a perder, Wesley fingia não saber, transformando suas vidas em uma grande, uma enorme mentira.

Algumas vezes, retornava à casa de sua mãe e ouvia dela as seguintes palavras:

“Eu sou de um tempo em que os anos somados à nossa existência,

Em vez de do “velho”,

Chamava-se experiência”.

Sua sabedoria lhe dizia, que esta história estava ainda longe do fim...

                            



Carlos Lucchesi





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