Querida Tia "Chiquinha"

Na verdade, Vó Chiquinha era minha tia. Destas que todos chamam de avó, pela dedicação, carinho, sabedoria, colo e ombros sempre prontos a acalmar. Amada por todos, era repouso, como as águas mansas dos rios, e foi bem em frente de um que ela construiu a sua casa.

          Tivera infância dura do interior, que moldou a mulher franzina, mas valente, cheia de forças na vontade de viver.

Os filhos vieram cedo, logo após o casamento, carregados no colo, enquanto lidava com os afazeres das barracas de festas do marido, nas cidadezinhas e lugarejos da região.

          Muitas vezes a vi, sob o frio intenso, dormindo debaixo do balcão das barracas, até a noite passar e recomeçar a festança, para repetir a mesma rotina do dia anterior. Alguns dias depois, voltava para casa no mesmo caminhão, trazendo consigo os filhos, e o cansaço daquela dura vida. Mesmo assim, jamais lhe escapou aquele seu sorriso curto, mas de fazer alagar, como nas enchentes, os rios dos corações de todos.

          Era só começar as férias e lá ia eu na velha maria-fumaça, através das montanhas de Minas Gerais. Era lá o seu cantinho, seu mundo, o seu pedacinho de paraíso, onde ela era as águas das sombras das árvores.

          Ficava fascinado pelo seu jeito de contar histórias, que faziam com que nossos olhares brilhassem, acompanhando aquelas suas narrativas.

          Tia Chiquinha, Vó Chiquinha, era tudo e muito mais. Certa vez, acordei assombrado em sua casa, com ruídos do lado de fora no quintal.

 “Fique tranquilo, é o Bichinho”, disse ela.

          Como iria ficar tranqüilo sabendo haver um “Bichinho” do lado de fora da casa? Talvez prestes a entrar por debaixo da porta ou através dela, e levar as almas de todos nós. Confesso que adormeci de medo naquela madrugada, até que novamente surgisse o sol. Só ai ela explicou que o tal “Bichinho” era um seresteiro, pretendente de Tiana, empregada da casa, que costumava amanhecer nas ruas, nas suas serenatas. O certo é que ela não se casou com ele, segundo dizem; talvez pelo mesmo fato de cantar feito assombração.

          Quisesse encontrar Tia Chiquinha, bastava achegar-se ao fogão à lenha da casa. Era ali que sempre ficava,, fazendo suas receitas e seu insuperável bolo de fubá; dividindo a atenção com o café que passava sobre a velha pedra cinza de ardósia.

Ah, aquele seu bolo de fubá! Num instante estava pronto, e a criançada rodeava a mesa, ansiosos por espalhar migalhas e farelos por todos os lados. Mas não antes que ela cortasse, da beirada da forma, as partes mais queimadas, meus pedaços favoritos, que ela sempre guardava.

          Teve a infelicidade de ver a morte do marido e três dos seus filhos. Talvez o destino assim tivesse escrito, por ser a mais forte de todos. Mas o fato é que, o sofrimento gerado colocou na sua face o que o frio dos invernos ao relento, e os anos vividos não haviam colocado. Logo a saúde foi-se diluindo, até que perdesse parte da visão e reconhecesse todos quase que apenas pela voz.

          A idade adulta e a rotina de trabalho me tiraram o tempo do seu convívio, mas sempre que podia estava de volta na casa da beira do rio, como fizera toda a minha vida.

          Um dia, senti aqui no peito que o tempo era escasso e era chegada à hora de vê-la; não mais para comer aquele delicioso bolo queimado, mas para dizê-la, como todas as palavras do meu reconhecimento e agradecimento, por tudo que ela havia dedicado a mim.

          Como sempre, a encontrei à beira do fogão e disse-lhe que havia feito mais que uma tia faria, ou uma avó deveria fazer. Acolheu-me e dividiu comigo o mesmo amor e carinho, que dedicara toda  sua vida à seus próprios filhos.

         Depois de um longo abraço, saí dali com um nó na garganta, olhos turvados, e a certeza de que fora a última vez, retornando ao Rio de Janeiro para a rotina e as lidas da vida. Dois meses depois chegara a notícia da sua partida. Decidi não fazer esta última viagem, pois a minha gratidão e adeus já havia lhe dado ainda em vida...

         

                               



Carlos Lucchesi



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