Sobreviveu à própria Morte

Um dia, não muito distante daqui, em tempo ainda não muito remoto, viveu um poeta com uma história ímpar, intrigante e inconfundível. Como todos os poetas, encontrara afinal a sua Musa. Assim a chamou, manteve e preservou; sem jamais tê-la dividido, partilhado, com quem quer que fosse, ou mesmo compartilhado algum momento da sua vida.

Fez dela seu mundo e o cercou de muralhas gigantescas, só concebíveis nas fortalezas dos castelos medievais; ingenuamente acreditando que qualquer ameaça fizesse caminho pelo lado de fora daquele universo, aonde imaginava apenas ele poderia penetrar. Seus motivos eram insuperáveis; as diferenças profundas, que colocavam entre ambos um abismo, onde o outro era apenas a sombra de uma imagem feminina distorcida, inalcançável e obscura, do lado oposto e devasso da visão.

A mulher que descrevia em seus textos era outra; tão outra, que precisava mantê-la protegida do próprio e inominável reflexo. Torná-la real, aproximá-la, trazê-la para seu convívio, corromperia e macularia toda a sua obra literária; mancharia a realidade da própria ficção, seus princípios, e a verdade dos seus ideais defendidos.

Assim, a manteve afastada de si mesma e imune, até que um dia teve notícia de que aquela outra se perdera na desonra de vulgaridades, e se entregara às indignidades, iniquidades e desvarios da sua mente e índole irremediavelmente  pervertidas, e se jogara do abismo.

Foi um duro golpe, o mais forte já sentido, que pela primeira vez lhe fez dobrar os joelhos, em angústias desmedidas. Contudo, ergueu-se; entendera o inevitável do anunciado desfecho previsível, e não vendo alternativas, a "enterrou" ainda viva. 

Não permitiria, porém, que a sua Musa tivesse o mesmo destino e também sucumbisse. Havia sobrevivido com ela o caráter, honestidade, a verdade, princípios inquestionáveis de nobreza; mesmo que tivessem sido, e fossem agora apenas parte e a única meia face naquela sua ficção.

Eis que então, o poeta novamente levantou a cabeça e mesmo na dor das suas lágrimas sorriu. Orgulhou-se do Amor que plantou, não colheu, mas sentiu; o mais puro e verdadeiro sentimento jamais concebido. Maior do que o infinito do céu que flutuava sobre a sua cabeça; seu único motivo presente visível de inspiração. Alegrou-se com o mundo, que ele mesmo havia criado, traçado pelas linhas da escrita. Naquele mesmo céu, agora só seu, a estrela mais brilhante havia sobrepujado a própria morte; eternizada sublimemente, vivendo na sua arte, aquela virtuosa outra parte, para sempre em suas poesias.

Fez-se exceção às leis conhecidas e aos princípios da própria vida.


                                



Carlos Lucchesi




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