Sempre que caminho pelas ruas da cidade,
Sinto em meu peito a mesma imensa saudade:
Dos tempos passados, das coisas perdidas,
Hoje só retrato, da minha terra querida.

Nas folgas dos estudos ou do trabalho,
Lá ia eu, na velha "Maria Fumaça",
A caminho de Carvalhos...

Seguia nos trilhos vagarosamente,
E pela janela se via de tudo:
Pássaros, flores e rios de águas correntes.

Trilhava tão perto das encostas e tão devagar,
Que, pela janela, era possível colher uma rosa,
Sem que nenhuma de suas pétalas viesse soltar.

Em cada reta, se havia alguma subida a vista,
Da janela a gente gritava:
- "Bota mais lenha na fornalha, seu maquinista!"

Se de algum vagão,
O som de música se ouvia,
Todo povo rodeava o violeiro,
Pra acompanhar a cantoria.

Quando parava na estação de algum lugarejo distante,
Tinha o cafezinho bem quente,
Pra todos os viajantes;
E até mesmo o queijo mineiro,
Feito ali mesmo,
Com gostinho bem caseiro.

Antes da próxima estação,
Passava o bilheteiro:
- "Mostrem suas passagens, por favor, senhores passageiros!"
Alguns meninos aproveitavam a parada,
E vendiam de tudo: balas, doces e deliciosas cocadas.

Ao chegar no seu destino,
A cidade já esperava sorridente,
E todos saiam nas janelas,
Pra ver se avistavam algum parente.

Vinham meninas dos lugarejos de todos os lados,
Fixavam os olhos nos meninos visitantes,
Pra ver se conseguiam, entre eles, algum namorado.

Novamente o sino da estação tocava,
E lá se ia de novo o velho trem,
Mas no dia seguinte, na mesma hora, voltava.

Por entre aquelas montanhas,
O apito do trem já não se ouve mais,
Os carros passam por onde antes eram trilhos,
Deixando a poeira de nossas saudades pra trás.

Alguns amigos já se foram,
Assim como o som daquele saudoso apito:
Nilton e Flávio Lucchesi, meus eternos primos queridos!

Ainda conservo em Carvalhos a minha pequena casinha,
Mas já não sei se volto lá com aquela mesma alegria.

Hoje a estação está deserta,
Nem trilhos existem mais,
Tiraram com eles um pouco da nossa alegria,
E da vida simples da minha terra,
Coisas que não esqueço jamais...










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Carlos Lucchesi
                                                                       Trilhos da Felicidade      
                                                                                                                         Aos primos Nilton e Flávio Lucchesi