Um Mestre e seus últimos Discípulos

Conta-se que em tempos passados, estudiosos da filosofia caminhavam junto com aquele que consideravam o mestre maior, o mais sábio de todos. Deixaram todos os afazeres e saíram em uma longa jornada, a fim de descobrir, aprender e viver todas as experiências dos caminhos da vida.

Seu destino final era o mais alto pico da região, onde pretendiam construir um mosteiro, um local de reflexão, ensinamentos e meditação.

Na primeira noite, acamparam na beira de um rio, colhendo frutas da mata para se alimentarem.
Veio a segunda noite e encontraram pelo caminho um humilde sítio, onde pediram pousada. O chefe da casa os abrigou no celeiro, mas nada tinha para lhes dar, pois viviam em extrema pobreza, sem a certeza do alimento do dia seguinte.

Dali partiram logo com o clarear do dia, e nada foi dito durante aquela caminhada. Pairava no ar uma grande tristeza em todos pelo desconforto daquela família, e a míngua na qual estavam condenados e fadados a viver.

Na segunda noite, encontraram outro velho sítio, mas desta vez, além da pousada foi- lhes dado algo para comer.
Vivia ali um grupo de quatro pessoas e nada mais faziam do que plantar o necessário e tirar vinte litros de leite diários de uma velha vaquinha, os quais vendiam na região, para a compra daquilo que não podiam produzir. Aquela vaquinha era a única e derradeira fonte de renda daquela família, e nada indicava que isso deveria mudar.

Quando veio o amanhecer, o mestre reuniu os seus discípulos e os ordenou que pegassem aquela vaquinha e a entregassem ao dono do sítio da noite anterior, para que lhe servisse de alimento, ao menos por algum tempo deveria ser o bastante para o difícil sustento.

Saíram dali, sem que o dono tomasse conhecimento e fizeram o que lhes tinha sido ordenado. Contudo, de volta ao caminho abandonaram o mestre e deixaram que este seguisse sozinho. Não encontraram qualquer justificativa, para aquele que lhes dera pousada e alimento fosse tratado de forma tão injusta.

O mestre seguiu sozinho e se instalou naquele pico mais alto, construindo sozinho a sua moradia. Seu último destino da jornada e objetivo pretendido.

Dois anos se passaram e os discípulos se reuniram novamente. Decidiram que fariam o mesmo caminho e visitariam aqueles sítios, por onde haviam passado.

Grande foi o espanto ao verem no primeiro a grande mudança. Com a vaca que aquele homem recebeu das suas mãos, trocou por dezenas de galinhas poedeiras, e em pouco tempo se tornou o maior fornecedor de ovos de toda a região. O sítio agora ostentava fartura por todos os lados e progredia a cada dia.

Saíram dali felizes e pegaram o caminho que conduzia àquela segunda pousada.

Novamente, constataram grandes mudanças. Aquela família não tendo mais a vaquinha cuidou de conseguir outras formas de sustento, e todos saíram para procurar alternativas de sobrevivência. Com a força do trabalho de todos, logo progrediram. Do velho sítio, construíram uma rica e farta fazenda.

Na noite seguinte os mesmos discípulos se reuniram para avaliar todo o ocorrido, e só ai entenderam a sabedoria daquele que um dia fora deles o grande Mestre. Contudo, mais sábio ainda fora o dono do primeiro sítio, que não havia comido a sua "galinha dos ovos de ouro".

Voltaram aos seus afazeres, pois perceberam que jamais chegariam a Mestres...

 



Carlos Lucchesi






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